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NÃO
PISE NA GRAMA
Placa inútil e amarela:
"Não pise na grama."
Amarela
pela ausência de girassóis.
Inútil
porque não tenho os pés no chão.
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br

TUDO
PELOS ARES
Somos anjos perdidos.
Asas mortas no chão
desde a primeira audição
da palavra impossível.
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JANEIRO
O dourado vence o vermelho
no dia nascente.
A revanche: o crepúsculo.
Verão.
Estação de sonhos e ócio.
Já cheira a saudade
antes de esquentar.
Provar as bênçãos
dos bons arcanjos
em trajes de banho
sobre a areia branca
e a irregularidade
dos horizontes
das
cidades
do interior
da
alma.
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VENTO
FORTE
...........................Para
Mario Quintana
O vento aqui não pára.
Nem um segundo,
nem um pouquinho.
Ah, se eu fosse moinho...
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OS
PÁSSAROS?
O sol renascia.
Bocejadamente abri a porta.
O horizonte se escondia atrás das árvores.
Entro no estábulo de folha
e alimento minha criação.
Do balde ao chão:
consoantes, dígrafos, cedilhas...
Comem caladas.
Levo duas ao colo e as embalo,
dou tapas nas costas, faço de tudo
mas não rimam.
Foi quando estranhei um estranho estranho
.......................
..... ......................
[ ali parado.
Sem métrica para prendê-las,
todas voaram, cheias de sons pensados,
para seus olhos.
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DA
TENTATIVA
Quis fazer um poema triste.
Mas triste estou eu, não o poema triste.
(Celulose com rugas no carpete.)
Tento fazer um verso frio.
Mas frio é esse tempo excomungado, não o
.......................
..... ......................
[ verso frio.
(Alvidez alvidrada janela abaixo.)
Imagino um soneto morto
e vejo que a folha não respira.
- Medusa, olha essa poesia!
Com pena idiossincrática,
deito a pena esferográfica.
(Talvez se eu falasse de lagartixas...)
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TANGO
MIO
Perdi o passo.
Sem equilíbrio,
pisei no pé do caos.
Meu ócio antigo
se embriagava no bar,
cercado de inimigos.
O sonho não realizado
fumava-se, cabisbaixo,
num degrau abaixo.
Adivinhei minha esperança inteira
lá fora, no beco de Bandeira,
mendigando.
Ah, se em minha alma
tocasse funk...
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ALEGRIA
...........................Para
Drummond
E eu aqui nesta cidade,
cercado de realidade,
aumentando a minha idade,
alérgico a felicidade,
procuro flores no asfalto.
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(veja
no Youtube)

INFÂNCIA
No vento,
Pedrinho perdeu
sua sombra.
- Cadê tua sombra, menino?
Gritou a mãe.
- Só não perde a cabeça porque está
.......................
..... [ presa no pescoço.
Disse a vó.
Pedrinho ria a danar.
Depois foi estudar
enquanto a sombra brincava
de ser noite.
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VICE-REI
Eu sempre estendi as mãos
para as borboletas...
Abria os braços
para o passado saudoso...
para o futuro sonhado...
mas nunca tocaram em mim.
Hoje, fiquei imóvel
e uma pousou no meu pé.
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A
CECÍLIA MEIRELES
Cantos serenados
cruzam etéreos crepúsculos.
Nuvens douradas
pastam perfumes seculares
em seus altos caminhos.
Sonhos naufragados
atravessam espelhos, horizontes,
borbulham baixinho:
A poesia da rosa
é seu espinho.
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CULPA
Meus passeios
poluem o mundo.
Para ler,
gasto a luz de cidades inundadas.
A geladeira
esburaca a camada de ozônio.
Banhos longos
desertificam o planeta.
Para comer, beber, viver
gasto dinheiro (que nem ganhei).
Meus poemas
derrubam árvores.
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PARA
MANOEL DE BARROS
Seu Nhonhô
morava no silêncio
e tinha cabelos de nuvens.
Era irmanado das águas paradas
e de quando em vez libélulas
punham ovos em sua cabeça.
Sua voz tinha falha de crostas
e vulcões invisíveis expeliam o nada
.......................
........ [por suas ventas.
Da última vez que o vi
estava árvore.
Quando foi cortado,
se cercou de cinza
e desandou a falar sem dizer.
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CORTE
Tenho sorte.
Ao menos tento forte
(mesmo que não acerte)
fazer do ócio, arte.
O tempo curto - corte.
Sem vida - morte.
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br

ÁGUA
VIVA
Eu quero o poema cnidoblasto,
cheio de chatos nematocistos.
Que arde como os antigos emplastos,
estranho como os ornitorrincos.
Que ignore aqueles verdes pastos
e embriague como vinho tinto.
Quero o verso chato enigmático
que cante tudo e nada que sinto.
Que se danem o pássaro simpático
e as flores em formato de brinco.
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DELIVERY
Somos nazistas alienados
contribuindo semi-cegos
para os campos de concentração
de renda.
Criamos necessidades de consumo
inúteis
matando chances e gentes
ainda mais cegas.
Quem tem olhos,
tem bolsos
cheios
e milhões
de vendas.
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REVELAÇÃO
Eu me esqueci no armário.
Pensei estar vivendo,
estudando, trabalhando, sendo!
Pensei ter amado e odiado,
aprendido e ensinado,
fugido e lutado,
confundido e explicado.
Mas hoje, surpreso,
me vi no armário embutido
calado, sozinho, perdido, parado.
Fabio Rochawww.fabiorocha.com.br
(veja
no Youtube)

NA
MEDIDA DO IMPOSSÍVEL
Queria arrombar com versos pesados
as portas do Paraíso.
Escritos com o sangue dos expulsos
e a revolta das gerações infindas.
Queria voltar ao que nos pertence
com um poema
na medida
do impossível.
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br

PRALARVAS
O que fica
da vida
vivida
pro amanhã?
Trabalho pra larvas.
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br

PAPEL
De todo o silêncio
ouço só o esplêndido
silêncio das árvores.
Pois o silêncio de quem fala
e cala
é incompleto.
Por isso, ouço o silêncio
distante
das árvores que nunca vi.
Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br

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