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NÃO PISE NA GRAMA
Placa inútil e amarela:
"Não pise na grama."
Amarela
pela ausência de girassóis.
Inútil
porque não tenho os pés no chão.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)

TUDO PELOS ARES
Somos anjos perdidos.
Asas mortas no chão
desde a primeira audição
da palavra impossível.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)


JANEIRO
O dourado vence o vermelho
no dia nascente.
A revanche: o crepúsculo.
Verão.
Estação de sonhos e ócio.
Já cheira a saudade
antes de esquentar.
Provar as bênçãos
dos bons arcanjos
em trajes de banho
sobre a areia branca
e a irregularidade
dos horizontes
das
cidades
do interior
da
alma.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)

VENTO FORTE
(Para Mario Quintana)
O vento aqui não pára.
Nem um segundo,
nem um pouquinho.
Ah, se eu fosse moinho...
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(do livro TUDO
PELOS ARES)

OS PÁSSAROS?
O sol renascia.
Bocejadamente abri a porta.
O horizonte se escondia atrás das árvores.
Entro no estábulo de folha
e alimento minha criação.
Do balde ao chão:
consoantes, dígrafos, cedilhas...
Comem caladas.
Levo duas ao colo e as embalo,
dou tapas nas costas, faço de tudo
mas não rimam.
Foi quando estranhei um estranho estranho ali parado.
Sem métrica para prendê-las,
todas voaram, cheias de sons pensados,
para seus olhos.
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(do livro NA
MEDIDA DO IMPOSSÍVEL)

DA TENTATIVA
Quis fazer um poema triste.
Mas triste estou eu, não o poema triste.
(Celulose com rugas no carpete.)
Tento fazer um verso frio.
Mas frio é esse tempo excomungado, não o verso frio.
(Alvidez alvidrada janela abaixo.)
Imagino um soneto morto
e vejo que a folha não respira.
- Medusa, olha essa poesia!
Com pena idiossincrática,
deito a pena esferográfica.
(Talvez se eu falasse de lagartixas...)
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(do livro TUDO
PELOS ARES)

TANGO MIO
Perdi o passo.
Sem equilíbrio,
pisei no pé do caos.
Meu ócio antigo
se embriagava no bar,
cercado de inimigos.
O sonho não realizado
fumava-se, cabisbaixo,
num degrau abaixo.
Adivinhei minha esperança inteira
lá fora, no beco de Bandeira,
mendigando.
Ah, se em minha alma
tocasse funk...
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(do livro NA
MEDIDA DO IMPOSSÍVEL)

ALEGRIA
(Para Drummond )
E eu aqui nesta cidade,
cercado de realidade,
aumentando a minha idade,
alérgico a felicidade,
procuro flores no asfalto.
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(do livro NA
MEDIDA DO IMPOSSÍVEL)

(veja
no Youtube, com piano de Fábio Neto)

INFÂNCIA
No vento,
Pedrinho perdeu
sua sombra.
- Cadê tua sombra, menino?
Gritou a mãe.
- Só não perde a cabeça porque está presa no pescoço.
Disse a vó.
Pedrinho ria a danar.
Depois foi estudar
enquanto a sombra brincava
de ser noite.
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(do livro PRALARVAS)

VICE-REI
Eu sempre estendi as mãos
para as borboletas...
Abria os braços
para o passado saudoso...
para o futuro sonhado...
mas nunca tocaram em mim.
Hoje, fiquei imóvel
e uma pousou no meu pé.
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(do livro VICE-REI)

O GATO
De quando em vez
esse ser equilibrado
de aparente ausência assimilada,
esse eu sério, de óculos, barba,
poucas palavras e sorrisos,
desce da altura medida.
A vista míope enturva, escurece.
Dentes trincados não fazem preces.
A lentidão de pernas e braços
destransforma-se em negro gato.
Gato ágil que arranha de angústia rouca
tão profundo, tantas vezes, tanta gente...
vai embora num relampejar de luz pouca
e sou eu quem se arrepende.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)

QUADRO DEPRESSIVO
Dentro em mim vermelho
caem muros altos
de castelos musgos
lentamente frios.
Escombros do todo.
Não desejo saber
que parte da arte
partiu primeiro.
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(do livro FIM
NO COMEÇO)

SPAM
Emagreça
dormindo:
morra.
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(do livro ACRE-DITO)

PSICANÁLISE FREUDIANA
Agarro a gruta
pela goela
com força bruta
olho em seus olhos
meus:
morte.
Dentes trincados
pelos eriçados
um gato que foge
pro escuro
por mais que se aperte.
(Seu tempo acabou)
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(do livro ACRE-DITO)

PRECIOSIDADE
Valéria tem olhos de medo
como o dos pássaros
pequenos e frágeis.
Há agitação
sob as camadas
de sua plenitude
alva.
Cabelos e plumas se confundem
no lume
que vejo
e que imagino...
Valéria
fala pouco
mas olha muito.
Pra mim, basta.
E sigo, besta
a escrever muito
e falar pouco.
Ah, se nossos silêncios
se tocassem...
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(do livro LIBERDADE)

CONVOCAÇÃO
Venham a mim os loucos
os roucos, os poucos
os perdidos, vencidos e poetas!
Juntem-se a mim
rasgando gravatas
e quebrando televisores!
Sigamos o longo e solitário caminho
que leva a nós.
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(do livro LIBERDADE)

CONS-TATO
Sabe essa falta
dentro do peito
na madrugada?
Essa que Drummond
chamou de ausência
e tirou pra dançar?
Eu não sei dançar com ela.
(Então aperto-a
sinto-a plenamente entre minhas mãos
e deixo cair
o pó de palavras
quente.)
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(do livro NO
FIM, COMEÇO)

PAZ
Vou sem pressa
para a casa
que há em mim.
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(do livro NO
FIM, COMEÇO)

AMAR: QUEIMAR AMARRAS
Na tempestade tátil da mão
ao vento susurros certeiros
cuspir com fogo de dragão
e sabor de nevoeiros...
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(do livro NO
FIM, COMEÇO)

FUNDAMENTAÇÃO POÉTICA
1: ANSIEDADE COMO BEM
A base de minha poesia é a pressa.
Escrevo antes que o poema passe
antes que eu me critique
me encontre
e morra.
Escrevo antes de qualquer revisão ou cuidado
excessivo
com as novas regras gramaticais
sem pensar no FBI
ou na ABNT.
Antes de tudo
antes que o poema morra.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

AMOR FATI 2 - A REVANCHE
Para Bob Dylan
A dor do dia no apartamento sozinho
me pesa as pernas.
A louça por lavar me olha entre panelas, suspiros
e literalidade.
Uma baleia de aço
canta sofrida em algum ponto perto
asfalto.
Ar falta
na ansiedade concentrada
entre o peito e os braços abertos
ansiedade pulsante que se torna
tempestade crescente
Beethoven
e então
letra e palavra...
Palavra escrita
pela voz não dita
voz não dita no apartamento que me aperta o dia
agita antes de usar
aperta e pulsa e uso
relógio no pulso pulsando a vida passando em
medidas exatas
entra as minhas asas fechadas e a nostalgia do que não
faço
matemático.
Mas algo me mostra que
apesar de tudo e de nada
o momento é perfeito
o momento formado por todas essas partes do todo caótico
e a gaita de Bob Dylan
e a baleia indefinível em algum lugar por perto
algum lugar por certo que não se pode ver pela
janela
(tiros ao longe, tiros dos jornais de amanhã)
a solidão da plenitude...
Nada poderia ser diferente no dia
na minha vida
no mundo
ou no universo
pelo bem desta canção.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)
(veja
no Youtube, música de Anand Rao)

SENTIDO
Uma casa nada
pronta
na montanha
noite
um menino fundo
dentro
tanto
coração
que sua voz
escreve
luz.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

VERTIGENS DO DIA
Tento tonto
olhar o teto
branco
mas cada ponto
quieto
dança num entre
tanto.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

CONVERSAS COM MEU JARDINEIRO
O simples
é a essência
do belo.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

"JANELA, PALAVRA LINDA"
Para Adélia Prado
O grande mundo
lê jornais e revistas
se olvidando de criar Deus
e adivinhar a maciez desses montes verdes...
Acadêmicos palestram
para eles mesmos
no auditório 34
enquanto a poesia
me pinga novamente
devagarinho
das lisas pedras pros rios.
Adélia, não enxergo teus peixes santos
e igrejas só me rimam beleza
do lado de fora...
No entanto,
sua bagagem,
seus amores, cores e águas
me transbordam as mãos.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

INVENTO
Ser
como a sala 9053-F da UERJ
sem duras portas que durem:
o vento vem
leve
o vento vem
alegre
e o vento vence.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

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A CECÍLIA MEIRELES
Cantos serenados
cruzam etéreos crepúsculos.
Nuvens douradas
pastam perfumes seculares
em seus altos caminhos.
Sonhos naufragados
atravessam espelhos, horizontes,
borbulham baixinho:
A poesia da rosa
é seu espinho.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)

CULPA
Meus passeios
poluem o mundo.
Para ler,
gasto a luz de cidades inundadas.
A geladeira
esburaca a camada de ozônio.
Banhos longos
desertificam o planeta.
Para comer, beber, viver
gasto dinheiro (que nem ganhei).
Meus poemas
derrubam árvores.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)


PARA MANOEL DE BARROS
Seu Nhonhô
morava no silêncio
e tinha cabelos de nuvens.
Era irmanado das águas paradas
e de quando em vez libélulas
punham ovos em sua cabeça.
Sua voz tinha falha de crostas
e vulcões invisíveis expeliam o nada por suas ventas.
Da última vez que o vi
estava árvore.
Quando foi cortado,
se cercou de cinza
e desandou a falar sem dizer.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)

CORTE
Tenho sorte.
Ao menos tento forte
(mesmo que não acerte)
fazer do ócio, arte.
O tempo curto - corte.
Sem vida - morte.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)


ÁGUA VIVA
Eu quero o poema cnidoblasto,
cheio de chatos nematocistos.
Que arde como os antigos emplastos,
estranho como os ornitorrincos.
Que ignore aqueles verdes pastos
e embriague como vinho tinto.
Quero o verso chato enigmático
que cante tudo e nada que sinto.
Que se danem o pássaro simpático
e as flores em formato de brinco.
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(do livro TUDO
PELOS ARES)

DELIVERY
Somos nazistas alienados
contribuindo semi-cegos
para os campos de concentração
de renda.
Criamos necessidades de consumo
inúteis
matando chances e gentes
ainda mais cegas.
Quem tem olhos,
tem bolsos
cheios
e milhões
de vendas.
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(do livro VICE-REI)

REVELAÇÃO
Eu me esqueci no armário.
Pensei estar vivendo,
estudando, trabalhando, sendo!
Pensei ter amado e odiado,
aprendido e ensinado,
fugido e lutado,
confundido e explicado.
Mas hoje, surpreso,
me vi no armário embutido
calado, sozinho, perdido, parado.
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(do livro NA
MEDIDA DO IMPOSSÍVEL)

(veja
no Youtube)

NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL
Queria arrombar com versos pesados
as portas do Paraíso.
Escritos com o sangue dos expulsos
e a revolta das gerações infindas.
Queria voltar ao que nos pertence
com um poema
na medida
do impossível.
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(do livro NA
MEDIDA DO IMPOSSÍVEL)

PRALARVAS
O que fica
da vida
vivida
pro amanhã?
Trabalho pra larvas.
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(do livro PRALARVAS)


PAPEL
De todo o silêncio
ouço só o esplêndido
silêncio das árvores.
Pois o silêncio de quem fala
e cala
é incompleto.
Por isso, ouço o silêncio
distante
das árvores que nunca vi.
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(do livro CAMINHO
A MANHÃ)

WINDOW
Sou cavaleiro sem donzela
e meu escudo é uma tela.
Se eu não pensasse nela...
Suo frio na capela
se há casamento na novela.
Se eu não pensasse nela...
Sonho meu que não é meu:
já sonhava Romeu.
- Quem sonha? Ela ou eu?
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(do livro A
MAGIA DA POESIA)

UMBRAL
Estou trancado.
Lá fora
leões
que amo.
A casa encolheu
ou eu que cresci?
Estou armado até os dentes.
Eles têm fome.
Ouço seus rugidos.
(Algo em mim quer ser um monstro.)
Cansado de ferimentos
olho para a porta
a chave pesando a mão.
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(do livro O
OUTRO )

SOL E CÉU
Fazer cada pequena coisa
perfeitamente
requer tempo e paciência
que temos em alguma árvore perdida.
Ouço suas folhas.
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(do livro ALQUIMIA)

ESCREVER LAVA
Geralmente é quando leio
que o silêncio crepita distante.
É preciso então parar.
Prestar atenção:
Uma folha em branco
para conter a luz
antes que se perca
no escuro labirinto do momento.
Sinto
no ar seco
a invisibilidade
a que aspiro.
E na catedral inexistente
acendo uma vela imaginária
com a palavra.
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(do livro ALQUIMIA)

SUBÚRBIO
As pessoas na rua
aplaudem
as casas sem campainha.
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(do livro LIBERDADE)

SEMELHANÇA NA DIFERENÇA
Filosofia e Poesia
são dois braços
de um mesmo dorso
esticados no esforço
de tocar
além do tempo.
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(do livro NO
FIM, COMEÇO)

DO CRIAR CAMINHOS AO CAMINHAR
Atrás
das grades
da rotina
deixei a sombra
de um sonho
que não era meu...
Hoje, a vida plena
sorri em cada canto
de cada cômodo cômodo
que por mais que seja cômodo inclusive
deixo
quando dá na telha.
Criar
e curtir criadores...
Amar
sem contar
nem conter
amores:
movimentos de mãos
e de terra
e de tudo
maravilhosamente
i n c o n t r o l á v e i s.
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(do livro NO
FIM, COMEÇO)

PONTAL
Pedra antes de tudo pedra
quantos infinitos
oceanos silenciosos
cheios de carinhos, algas e ostras
passaram sob ti?
E esse céu
pintado de auroras marginais
com sangue e vento
ornado de agora
desde sempre?
(Cresce verde em teus velhos musgos
e a noite vem enganar a todos
com a mudança)
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(do livro NO
FIM, COMEÇO)

CHOQUE (TERAPIA)
Para Machado de Assis
Os olhos de Capitu
quando encontram
no infinito segundo
meu olhar cansado
libertam (e matam) pombas seculares
(bombas nucleares)
abrigadas nas calçadas do plexo.
Entanto, as mãos não movem
as mãos não movem não
as mãos não movem
como sempre não moveram
resolutamente não movem
rumo ao que quero
e tudo passa
escapa
e vivo morto
morto vivo
agarrando minha raiva
a volantes de automóveis
e versinhos por fazer
eterna mente.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

OSTRA
O sono me desperta a vida
e com palavras brinco
de pérolas.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

SORRY
choro na chuva e no vento
cada lágrima presa dentro
enquanto o carro corre
sem motivo ou direção
algo em mim morre
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

FLASH
Caminho trilhas sinuosas
enquanto árvores retas
me cortam com folhas
retangulares.
Com isso,
enquanto uma parte quer freiar,
acelero.
Corro e cortes cortam
meus braços e pernas
irregulares teimosos.
Paz
é correr mais.
(De longe acham que vôo.)
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

DIA
A praia mansa
antes que tarde
foice.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

COMBATE
Antes do cair da tarde
(e do tropeçar do dia)
a manhã abre seu olho dourado
e a paz guerreia com a alegria.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

PORTAS
Nos rodapés da eternidade
escalar ou cair tanto faz
só me importa a intensidade.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

DA ESPESSURA
O plano
cartesiano
é muito chato.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

A MEU AVÔ
Num dia de chuva fria
Salvador achou silêncio
e me tocou música
de rádio de pilha.
Deixou ligadas
conversas
sorrisos
tempos bons
portas abertas
idéias do contra
e açúcar no fundo das canecas...
Uma estrada simples
a se levar pra frente
sem terras ou guerras.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

CASAS VAZIAS
É na véspera
das partidas
que me acho inteiro
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

HOJE
Na caverna de Platão
olhamos, parados
a televisão.
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(do livro COMEÇO
NO FIM)

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