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"Eu não escrevo o que quero,
escrevo o que sou."
Clarice Lispector

Por não estarem distraídos
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria
como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê
que, por admiração, se estava de boca entreaberta:
eles respiravam de antemão o ar que estava à
frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para
dar matéria peso à levíssima embriaguez
que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas,
às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é
a graça, mas as águas são uma beleza
de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles,
a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se
transformou em não. Tudo se transformou em não
quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então
a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras
desacertadas. Ele procurava e não via, ela não
via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.
No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande
poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza
queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado
atenção, só porque não estavam
bastante distraídos. Só porque, de súbito
exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo
porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que
eram. Foram então aprender que, não se estando
distraído, o telefone não toca, e é preciso
sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone
finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do
que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade
inventada.
Clarice Lispector
Escrever, Humildade, Técnica
Essa incapacidade de atingir, de entender,
é que faz com que eu, por instinto de... de quê?
procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento.
Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado
de várias coisas, mas não do que realmente e
apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só
problema de expressão, meu problema é muito
mais grave: é o de concepção. Quando
falo em "humildade" refiro-me à humildade
no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado
ou não); refiro-me à humildade que vem da plena
consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me
à humildade como técnica. Virgem Maria, até
eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é
que não é. Humildade com técnica é
o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa
é que ela não escapa totalmente. Descobri este
tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma
engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado,
pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil
em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho
tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o
atraso que erro dá à vida, faz perder muito
tempo.
Clarice Lispector (do livro "A Descoberta
do Mundo")
"Eu escrevo sem esperança de
que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera
em nada... Porque no fundo a gente não está
querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar
de um modo ou de outro..."
Clarice Lispector

Os Laços de Família
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi
que as levaria à Estação. A mãe
contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros,
a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho
de zombaria e frieza assistia.
— Não esqueci de nada? perguntava pela terceira
vez a mãe.
— Não, não, não esqueceu de nada,
respondia a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica
entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante
as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam
suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento
com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis
que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi,
a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. "Perdoe alguma palavra mal dita",
dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira
Antônio não saber o que fazer das malas nas mãos,
a gaguejar - perturbado em ser o bom genro. "Se eu rio,
eles pensam que estou louca", pensara Catarina franzindo
as sobrancelhas. "Quem casa um filho perde um filho,
quem casa uma filha ganha mais um", acrescentara a mãe,
e Antônio aproveitara sua gripe para tossir. Catarina,
de pé, observava com malícia o marido, cuja
segurança se desvanecera para dar lugar a um homem
moreno e miúdo, forçado a ser filho daquela
mulherzinha grisalha... Foi então que a vontade de
rir tornou-se mais forte. Felizmente nunca precisava rir de
fato quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam uma expressão
esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos - e
o riso saía pelos olhos. Sempre doía um pouco
ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena
rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
— Continuo a dizer que o menino está magro,
disse a mãe resistindo aos solavancos do carro. E apesar
de Antônio não estar presente, ela usava o mesmo
tom de desafio e acusação que empregava diante
dele. Tanto que uma noite Antônio se agitara: não
é por culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de
Severina, pois antes do casamento projetava serem sogra e
genro modernos. Logo à primeira visita da mãe
ao casal, a palavra Severina tornara-se difícil na
boca do marido, e agora, então, o fato de chamá-la
pelo nome não impedira que... - Catarina olhava-os
e ria.
— O menino sempre foi magro, mamãe, respondeu-lhe.
O táxi avançava monótono.
— Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decisão.
— Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era
um menino nervoso, distraído. Durante a visita da avó
tornara-se ainda mais distante, dormira mal, perturbado pelos
carinhos excessivos e pelos beliscões de amor da velha.
Antônio, que nunca se preocupara especialmente com a
sensibilidade do filho, passara a dar indiretas à sogra,
"a proteger uma criança” ...
— Não esqueci de nada..., recomeçou a
mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as
uma contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah!
ah! - exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha,
e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos
piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a
bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar
a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa,
seria inútil esconder: Catarina fora lançada
contra Severina, numa intimidade de corpo há muito
esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe.
Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou
beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando
a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe
nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de
se ajeitarem, não tinham o que falar - por que não
chegavam logo à Estação?
— Não esqueci de nada, perguntou a mãe
com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe.
— Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão.
— Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe perplexa.
Só se espiaram realmente quando as malas foram dispostas
no trem, depois de trocados os beijos: a cabeça da
mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida
e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que
dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e examinou-se
no seu chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da
filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde
não faltava alguma admiração por si mesma.
A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar
senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso
da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue.
Como se "mãe e filha" fosse vida e repugnância.
Não, não se podia dizer que amava sua mãe.
Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara
o espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo. O rosto usado e ainda
bem esperto parecia esforçar-se por dar aos outros
alguma impressão, da qual o chapéu faria parte.
A campainha da Estação tocou de súbito,
houve um movimento geral de ansiedade, várias pessoas
correram pensando que o trem já partia: mamãe!
disse a mulher. Catarina! disse a velha. Ambas se olhavam
espantadas, a mala na cabeça de um carregador interrompeu-lhes
a visão e um rapaz correndo segurou de passagem o braço
de Catarina, deslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam
ver-se de novo, Catarina estava sob a iminência de lhe
perguntar se não esquecera de nada...
— ...não esqueci de nada? perguntou a mãe.
— Também a Catarina parecia que haviam esquecido
de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas - porque
se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. Uma
mulher arrastava uma criança, a criança chorava,
novamente a campainha da Estação soou... Mamãe,
disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a
outra? e agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam
um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina. E ela
deveria ter respondido: e eu sou tua filha.
— Não vá pegar corrente de ar! gritou
Catarina.
— Ora menina, sou lá criança, disse a
mãe sem deixar porém de se preocupar com a própria
aparência. A mão sardenta, um pouco trêmula,
arranjava com delicadeza a aba do chapéu e Catarina
teve subitamente vontade de lhe perguntar se fora feliz com
seu pai:
— Dê lembranças a titia! gritou.
— Sim, sim!
— Mamãe, disse Catarina porque um longo apito
se ouvira e no meio da fumaça as rodas já se
moviam.
— Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados,
e ao primeiro solavanco a filha viu-a levar as mãos
ao chapéu: este caíra-lhe até o nariz,
deixando aparecer apenas a nova dentadura. O trem já
andava e Catarina acenava. O rosto da mãe desapareceu
um instante e reapareceu já sem o chapéu, o
coque dos cabelos desmanchado caindo em mechas brancas sobre
os ombros como as de uma donzela - o rosto estava inclinado
sem sorrir, talvez mesmo sem enxergar mais a filha distante.
No meio da fumaça Catarina começou a caminhar
de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia
dos estrábicos. Sem a companhia da mãe, recuperara
o modo firme de caminhar: sozinha era mais fácil. Alguns
homens a olhavam, ela era doce, um pouco pesada de corpo.
Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados
de acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o
amor doloroso lhe pareceu a felicidade - tudo estava tão
vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas
de laranja - a força fluia e refluia no seu coração
com pesada riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão
elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera
como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa
adivinharia o gosto que essa mulher tinha pelas coisas do
mundo. Espiava as pessoas com insistência, procurando
fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda úmido
de lágrimas pela mãe. Desviou-se dos carros,
conseguiu aproximar-se do ônibus burlando a fila, espiando
com ironia; nada impediria que essa pequena mulher que andava
rolando os quadris subisse mais um degrau misterioso nos seus
dias.
O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento
enquanto se libertava do chapeuzinho com a outra mão;
parecia disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro,
caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito.
Antônio mal levantou os olhos do livro. A tarde de sábado
sempre fora "sua", e, logo depois da partida de
Severina, ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha.
— "Ela" foi?
— Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do
quarto de seu filho. Ah, sim, lá estava o menino, pensou
com alívio súbito. Seu filho. Magro e nervoso.
Desde que se pusera de pé caminhara firme; mas quase
aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos: constatava
as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá
estava ele mexendo na toalha molhada, exato e distante. A
mulher sentia um calor bom e gostaria de prender o menino
para sempre a este momento; puxou-lhe a toalha das mãos
em censura: este menino! Mas o menino olhava indiferente para
o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distraído.
Ninguém conseguira ainda chamar-lhe verdadeiramente
a atenção. A mãe sacudia a toalha no
ar e impedia com sua forma a visão do quarto: mamãe,
disse o menino. Catarina voltou-se rápida. Era a primeira
vez que ele dizia "mamãe" nesse tom e sem
pedir nada. Fora mais que uma constatação: mamãe!
A mulher continuou a sacudir a toalha com violência
e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não
encontrou ninguém que entendesse o que ela não
pudesse explicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de
pendurá-la para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse
a forma. Contaria que o filho dissera: mamãe, quem
é Deus. Não, talvez: mamãe, menino quer
Deus. Talvez. Só em símbolos a verdade caberia,
só em símbolos é que a receberiam. Com
os olhos sorrindo de sua mentira necessária, e sobretudo
da própria tolice, fugindo de Severina, a mulher inesperadamente
riu de fato para o menino, não só com os olhos:
o corpo todo riu quebrado, quebrado um invólucro, e
uma aspereza aparecendo como uma rouquidão. Feia, disse
então o menino examinando-a.
— Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela
mão.
Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair!
e bateu a porta do apartamento.
Antônio mal teve tempo de levantar os olhos do livro
- e com surpresa espiava a sala já vazia. Catarina!
chamou, mas já se ouvia o ruído do elevador
descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo e assoando
o nariz. Porque sábado era seu, mas ele queria que
sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava
o seu sábado. Catarina! chamou aborrecido embora soubesse
que ela não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se, foi
à janela e um segundo depois enxergou sua mulher e
seu filho na calçada.
Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho
a tomar. E de súbito pondo-se em marcha.
Por que andava ela tão forte, segurando a mão
da criança? pela janela via sua mulher prendendo com
força a mão da criança e caminhando depressa,
com os olhos fixos adiante; e, mesmo sem ver, o homem adivinhava
sua boca endurecida. A criança, não se sabia
por que obscura compreensão, também olhava fixo
para a frente, surpreendida e ingênua. Vistas de cima
as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam achatadas
ao solo e mais escuras à luz do mar. Os cabelos da
criança voavam...
O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inocência
de frase cotidiana, inquietou-o: aonde vão? Via preocupado
que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento
em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse
a seu filho... mas o quê? "Catarina", pensou,
"Catarina, esta criança ainda é inocente!"
Em que momento é que a mãe, apertando uma criança,
dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre
sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem,
sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela, batendo
dedos nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a
um morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe
transferia ao filho a herança. E com que sombrio prazer.
Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério
partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes
se alimenta a liberdade de um homem. "Catarina",
pensou com cólera, "a criança é
inocente!" Tinham porém desaparecido pela praia.
O mistério partilhado.
"Mas e eu? e eu?" perguntou assustado. Os dois
tinham ido embora sozinhos. E ele ficara. "Com o seu
sábado." E sua gripe. No apartamento arrumado,
onde "tudo corria bem". Quem sabe se sua mulher
estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos
móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros?
fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro.
E sabia que se a mulher aproveitava da situação
de um marido moço e cheio de futuro - deprezava-a também,
com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e
magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar
a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela
o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim
era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava
propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações
entre ambos eram tão tranqüilas. Às vezes
ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto
ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista
nua. Por que precisava humilhá-la? no entanto ele bem
sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa.
Mas tinha se habituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a
com ternura, e já agora ela sorria - sem rancor? Talvez
de tudo isso tivessem nascido suas relações
pacíficas, e aquelas conversas em voz tranqüila
que faziam a atmosfera do lar para a criança. Ou esta
se irritava às vezes? Às vezes o menino se irritava,
batia os pés, gritava sob pesadelos. De onde nascera
esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher
e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão
tranqüilos que, se se aproximava um momento de alegria,
eles se olhavam rapidamente, quase irônicos, e os olhos
de ambos diziam: não vamos gastá-lo, não
vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido
desde sempre.
Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de mãos
dadas com o filho, e dissera-se: ela está tomando o
momento de alegria - sozinha. Sentira-se frustrado porque
há muito não poderia viver senão com
ela. E ela conseguia tomar seus momentos - sozinha. Por exemplo,
que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento? não
que a suspeitasse mas inquietava-se.
A última luz da tarde estava pesada e abatia-se com
gravidade sobre os objetos. As areias estalavam secas. O dia
inteiro estivera sob essa ameaça de irradiação.
Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia cada
vez mais e zumbia no elevador ininterrupto do edifício.
Quando Catarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas.
O menino gritaria no primeiro sono, Catarina interromperia
um momento o jantar... e o elevador não pararia por
um instante sequer?! Não, o elevador não pararia
um instante.
— "Depois do jantar iremos ao cinema", resolveu
o homem. Porque depois do cinema seria enfim noite, e este
dia se quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador.
Clarice Lispector (do livro "Laços de Família")
Precisão
O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma
precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho
de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande
exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa
exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade
chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos
adivinhando, confusos, a perfeição.
Clarice Lispector
Sobre a escrita Meu Deus do céu, não
tenho nada a dizer. O som de minha máquina é
macio.
Que é que eu posso escrever? Como recomeçar
a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação.
Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como
se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é
tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra
é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito.
Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de
pensar o meu sentimento.
Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o
mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre
achei que o traço de um escultor é identificável
por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que
digo - é por esconderem outras palavras.
Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é
porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la?
Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não
pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo
o resto não é proibido. Mas acontece que eu
quero é exatamente me unir a essa palavra proibida.
Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a
direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro
o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que
inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta
proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.
Simplesmente não há palavras.
O que não sei dizer é mais importante do que
o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível
para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita
são como a música, duas coisas das mais altas
que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral
e vegetal também. Sim, mas é a sorte às
vezes.
Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa
que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse
tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda
existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo
com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando
eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto
essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode
ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.
Simplesmente as palavras do homem.
Clarice Lispector
Dá-me a Tua Mão
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como
vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos
existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos
que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir
que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos
de silêncio.
Clarice Lispector
Teu Segredo
Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas,
atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas
e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo
é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei.
E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como
tu és o meu.
Clarice Lispector
Meu Deus, me dê a coragem
Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e
cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a
coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça
com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em
êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo
e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas
ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão
não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com
que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como
se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado
de pensar.
Clarice Lispector

Não entendo. Isso é tão
vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é
sempre limitado. Mas não entender pode não ter
fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não
entendo. Não entender, do modo como falo, é
um dom. Não entender, mas não como um simples
de espírito. O bom é ser inteligente e não
entender. É uma benção estranha, como
ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso,
é uma doçura de burrice. Só que de vez
em quando vem a inquietação: quero entender
um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não
entendo.
Clarice Lispector

Mas há a vida que é para ser
intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido
até a última gota. Sem nenhum medo. Não
mata.
Clarice Lispector
AMOR
(Texto incluído entre
“Os cem melhores contos brasileiros do século”,
Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção
de Ítalo Moriconi.)
Um pouco cansada, com as compras deformando
o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou
o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se
então no banco procurando conforto, num suspiro de
meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta.
Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes
cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa,
o fogão enguiçado dava estouros. O calor era
forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o
vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe
que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo
horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que
tinha na mão, não outras, mas essas apenas.
E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa
com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque,
cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido
chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno
das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente,
sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde
as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais
precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se
mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco
e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos,
a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo
vagamente artístico encaminhara-se há muito
no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo,
seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima
desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível
de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma
aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão
do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme
das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos
tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa
de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem
casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram
filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha
como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido
para descobrir que também sem a felicidade se vivia:
abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes
invisíveis, que viviam como quem trabalha — com
persistência, continuidade, alegria. O que sucedera
a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance:
uma exaltação perturbada que tantas vezes se
confundira com felicidade insuportável. Criara em troca
algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim
ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na
hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar
mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído
nas suas funções. Olhando os móveis limpos,
seu coração se apertava um pouco em espanto.
Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura
pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade
que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então
para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando
do lar e da família à revelia deles. Quando
voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do
colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua
tranqüila vibração. De manhã acordaria
aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis
de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos.
Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes
negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida.
Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo
um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o
fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou
profundamente e uma grande aceitação deu a seu
rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá
tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para
o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele
estava realmente parado. De pé, suas mãos se
mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança?
Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então
ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos
viriam jantar — o coração batia-lhe violento,
espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como
se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na
escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O
movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir
e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir —
como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse
teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas
continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada —
o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida
para trás, o pesado saco de tricô despencou-se
do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor
deu ordem de parada antes de saber do que se tratava —
o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava
pálida. Uma expressão de rosto, há muito
não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta,
incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe
o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal.
Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede.
O cego interrompera a mastigação e avançava
as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que
acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e,
entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o
bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais.
O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara
atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não
íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido
e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que
fazer com as compras no colo. E como uma estranha música,
o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por
quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a
sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam
antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham
um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara
de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as
gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios
dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes,
que se mantinham por um mínimo equilíbrio à
tona da escuridão — e por um momento a falta
de sentido deixava-as tão livres que elas não
sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi
tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente,
como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem
ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer
intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada.
O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força
e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria
parecia prestes a rebentar uma revolução, as
grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego
mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão.
Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo
cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam.
Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou
o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão
no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo...
E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que
esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão,
separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente
feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o
filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse
ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo
isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida
cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara
do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a
atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis,
olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um
momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado
no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração
batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores,
enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento
mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada
olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um
pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões
do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros.
Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos
na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito
tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio
regulava sua respiração. Ela adormecia dentro
de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda.
Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores,
pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado
pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde
vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido
de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande
demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se
rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia
central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos
eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as
sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra.
E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído
numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do
qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel.
Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções,
como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava
manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam
as águas. No tronco da árvore pregavam-se as
luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila.
O assassinato era profundo. E a morte não era o que
pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo
de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias
e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas,
o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse
uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e
era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão
rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças
e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à
garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada.
A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até
ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante,
sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas.
As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam
amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição
era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela
via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados
pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as
flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado...
O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo
voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana
aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia
nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais
se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação
de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro,
atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em
torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões
fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O
vigia apareceu espantado de não a ter visto.
Enquanto não chegou à porta do edifício,
parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até
o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia?
A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia,
mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu.
Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas
brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada
brilhava — que nova terra era essa? E por um instante
a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo
moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo
era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria
e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto.
Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava
o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do
mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele
vago sentimento de asco que a aproximação da
verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho,
quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um
mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? —
agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida
pelo demônio da fé. A vida é horrível,
disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado
do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que
precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse.
Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços,
ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino.
Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se.
Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança
mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até
a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior
olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede.
De que tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se
rompido na crosta e a água escapava. Estava diante
da ostra. E não havia como não olhá-la.
De que tinha vergonha? É que já não era
mais piedade, não era só piedade: seu coração
se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das
espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em
tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam
ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e
alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à
parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua
misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso,
pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou
ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque
nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes.
Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por
Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara
no seu coração as águas mais profundas?
Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre.
E, estremecendo, também sabia por quê. A vida
do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é
chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os
olhos molhados. No entanto não era com este sentimento
que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na
sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada
a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola,
longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios
a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena
aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia
o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa
às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia
ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé
a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo
corpo tremia. As gotas d'água caíam na água
parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos
besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa,
lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para
outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno
da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos
de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era
tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria
o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia
nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres,
vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião
estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar
de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também
suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete
com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las
a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente
com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais
fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família.
Cansados do dia, felizes em não discordar, tão
dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com
o coração bom e humano. As crianças cresciam
admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana
prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais
fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já
estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela
janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego
desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até
envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa
das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia
aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias
boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos
do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria
pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando
com o seu marido diante do café derramado.
— O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele
parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção.
Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
— Não quero que lhe aconteça nada, nunca!
disse ela.
— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão
dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje
de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa
toda havia um tom humorístico, triste. É hora
de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não
era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da
mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a
do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora
diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.
Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena
flama do dia.
Clarice Lispector

O SEGREDO
Há uma palavra que pertence a um
reino que me deixa muda de horror. Não espantes o nosso
mundo, não empurres com a palavra incauta o nosso barco
para sempre ao mar. Temo que depois da palavra tocada fiquemos
puros demais. Que faríamos de nossa vida pura? Deixa
o céu à esperança apenas, com os dedos
trêmulos cerro os teus lábios, não a digas.
Há tanto tempo eu de medo a escondo que esqueci que
a desconheço, e dela fiz o meu segredo mortal.
Clarice Lispector

ATENÇÃO AO SÁBADO
Acho que sábado é a rosa da
semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas
ao vento, e alguém despeja um balde de água
no terraço; sábado ao vento é a rosa
da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal,
e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão
em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro
sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar
cheio de abelhas.
No sábado é que as formigas subiam pela pedra.
Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da
calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão;
nós já tínhamos tomado banho.
De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de
cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.
Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa
molhada, não é?
No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer,
com grande esforço metálico a semana se abre
em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento
espantado poder recomeçar, vejo que é sábado
de tarde.
Tem sido sábado, mas já não me perguntam
mais.
Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo
de manhã.
Domingo de manhã também é a rosa da
semana.
Não é propriamente rosa que eu quero dizer.
Clarice Lispector (do livro
"Para não Esquecer")

A COZINHEIRA FELIZ, A GRANDEZA DA
SINCERIDADE
"Therezinha meu amor. Estás sempre em meu coração.
Desde o momento em que a vi meu coração tornou-se
cativo de seus encantos. Ao vê-la meiga e bela senti
minh´alma perturbada minha vida até então
vazia e triste. Tornou-se cheia de luz e esperança
acesa em meu peito a chama do amor. O amor que despertou em
mim. Therezinha queridinha do coração é
iluminado pela sua pureza e encontra em meu coração
a grandeza de minha sinceridade. Que felicidade podemos encontrar
um dia num coração que pulse junto ao nosso,
irmanados nas duçuras e agruras da vida um coração
amigo que nos conforte uma alma pura que nos adore e leve
ao céu doce balada de amor a mulher querida com que
sonhamos. Eternamente seu apaixonado Edgard. Da Therezinha
querida peço-lhe. Resposta. Estrada São Luiz,
30-C, Santa Cruz é o meu Endereço."
Clarice Lispector

O NASCIMENTO DO PRAZER (trecho)
O prazer nascendo dói tanto no peito
que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.
A alegria verdadeira não tem explicação
possível, não tem a possibilidade de ser compreendida
- e se parece com o início de uma perdição
irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente
bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só
que não é a morte, é a vida incomensurável
que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar
inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo.
E quem não tiver força, que antes cubra cada
nervo com uma película protetora, com uma película
de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode
consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio
ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não
é de se brincar com ele. Ele é nós.
Clarice Lispector

Nasci dura, heróica, solitária
e em pé. E encontrei meu contraponto na paisagem sem
pitoresco e sem beleza. A feiúra é o meu estandarte
de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual.
E desafio a morte. Eu - eu sou a minha própria morte.
E ninguém vai mais longe. O que há de bárbaro
em mim procura o bárbaro e cruel fora de mim. Vejo
em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às
chamas da fogueira. Sou uma árvore que arde com duro
prazer. Só uma doçura me possui: a conivência
com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego.
É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar
comiseravelmente o sacrifício da noite.
Clarice Lispector

A Repartição dos Pães
Era sábado e estávamos convidados
para o almoço de obrigação. Mas cada
um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo
com quem não queríamos. Cada um fora alguma
vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo.
E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado
e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém
ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto
a meu sábado – que fora da janela se balançava
em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo
mal, fechá-la na mão dura, onde eu o amarfanhava
como a um lenço. À espera do almoço,
bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento:
amanhã já seria domingo. Não é
com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade,
e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco.
A avareza de não repartir o sábado,ia pouco
a pouco roendo e avançando como ferrugem, até
que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o
sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela,
no entanto, cujo coração já conhecera
outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais
e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo,
sonhador e resignado que na sua casa só esperava como
pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos
ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear
o cavalo que correria de coração batendo para
outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não
tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos
deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva
realmente esperado e que não viera? Mas éramos
nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor
não importava a quem? E lavava contente os pés
do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre
a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs
vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de
pele quase estalando, chuchus de um verde líquido,
abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas
e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos
que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa,
pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos
– tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de
milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As
mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante
de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas
por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para
o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse.
E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro
chegasse.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava
pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger,
mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de
rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com
seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola
que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava
o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto
dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia
em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo
do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não
como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim
como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como
homens e mulheres, e não nós, os ávidos.
Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém,
era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par
do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à
altura da vida possível. Então, como fidalgos
camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser
comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada
guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu
sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que
eu não pagara de antemão com o sofrimento da
espera, fome que nasce quando a boca já está
perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome
inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho,
com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite,
sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas
acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá
água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída.
A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal
de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém.
Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos.
Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente
a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta,
e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade
de quem não engana o que come: comi aquela comida e
não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo
que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come,
come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa
de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da
piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi
sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque
nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não
posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais.
E não quero formar a vida porque a existência
já existe. Existe como um chão onde nós
todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra.
Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós
comemos.
Pão é amor entre estranhos.
Clarice Lispector (do livro "Laços
de Família")

Se tudo existe é porque sou. Mas por
que esse mal estar? É porque não estou vivendo
do único modo que existe para cada um de se viver e
nem sei qual é. Desconfortável. Não me
sinto bem. Não sei o que é que há. Mas
alguma coisa está errada e dá mal estar. No
entanto estou sendo franca e meu jogo é limpo. Abro
o jogo. Só não conto os fatos de minha vida:
sou secreta por natureza. O que há então? Só
sei que não quero a impostura. Recuso-me. Eu me aprofundei
mas não acredito em mim porque meu pensamento é
inventado.
Clarice Lispector

"PRECISA-SE"
Sendo este um jornal por excelência,
e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr
um anúncio em negrito: precisa-se de alguém
homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque
esta está tão contente que não pode ficar
sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente
bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria.
É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz
como estrelas cadentes, que até parece que só
se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da
noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma
ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa
que atenda ao anúncio só tem folga depois que
passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que
venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá
é tão grande que se tem que a repartir antes
que se transforme em drama. Implora-se também que venha,
implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca
oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas
como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor
da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não
se precisa de prática. E se pede desculpa por estar
num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há
em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina
para dar.
Clarice Lispector

BIOGRAFIA
Clarice nasce em Tchelchenik, na Ucrânia,
em 1920. Chega ao Brasil com os pais e as duas irmãs
aos dois meses de idade, instalando-se em Recife. A infância
é envolta em sérias dificuldades financeiras.
A mãe morre quando ela conta 9 anos de idade. A família
então se transfere para o Rio de Janeiro, onde Clarice
começa a trabalhar como professora particular de português.
A relação professor/aluno seria um dos temas
preferidos e recorrentes em toda a sua obra - desde o primeiro
romance: Perto do Coração Selvagem. Ela estuda
Direito, por contingência. Em seguida, começa
a trabalhar na Agência Nacional, como redatora. No jornalismo,
conhece e se aproxima de escritores e jornalistas como Antônio
Callado, Hélio Pelegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes
Campos, Alberto Dines e Rubem Braga. Os passos seguintes são
o jornal A Noite e o início do livro Perto do Coração
Selvagem - segundo ela, um processo cercado pela angústia.
O romance a persegue. As idéias surgem a qualquer hora,
em qualquer lugar. Nasce aí uma das características
do seu método de escrita - anotar as idéias
a qualquer hora, em qualquer pedaço de papel.
Em 43, conhece e casa-se com Maury Gurgel
Valente, futuro diplomata. O casamento dura 15 anos. Dele
nascem Pedro e Paulo. No ano seguinte, ela publica Perto do
Coração Selvagem. Em plena Segunda Guerra Mundial,
o casal vai para a Europa. Perto do Coração
Selvagem desnorteia a crítica literaria. Há
os que pretendem não compreender o romance, os que
procuram influências - de Virgínia Wolf e James
Joyce, quando ela nem os tinha lido - e ainda os que invocam
o temperamento feminino. Influências?
Perto do Coração Selvagem recebe
o prêmio da Fundação Graça Aranha.
Nas palavras de Lauro Escorel, as características do
romance revelam uma "personalidade de romancista verdadeiramente
excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força
da sua natureza inteligente e sensível". Já
no primeiro livro, identifica-se o estilo muito pessoal da
escritora. Nas páginas, Clarice explora pela primeira
vez a solidão e a incomunicabilidade humana, através
de uma prosa inquieta, próxima da poesia em determinados
momentos.
Rumo à Europa, os Gurgel Valente passam
por Natal. De lá para Nápoles. Já na
saída do Brasil, Clarice mostra-se dividida entre a
obrigação de acompanhar o marido e ter de deixar
a família e os amigos. Quando chega à Itália,
depois de um mês de viagem, escreve: "Na verdade
não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem
mesmo sei viajar".
Clarice permanece em Nápoles até
1946. Durante a II Guerra, presta ajuda num hospital de soldados
brasileiros. Uma dúvida: um serviço prestado
como cidadã brasileira ou como mulher de um diplomata
brasileiro? Como escritora, ela sente a presença do
sucesso. Por telegrama, sabe do prêmio recebido pelo
romance deixado no Brasil. Mantém uma correspondência
constante com os amigos que deixara para trás. Em Nápoles,
em 44, conclui O Lustre, livro iniciado no Brasil e que seria
publicado em 1946. Virgínia, a personagem principal
de O Lustre, tem a história narrada desde a infância
e também aparece sob o signo do mal, tal como Joana,
personagem do primeiro romance. Em O Lustre, Virgínia
mantém um relacionamento incestuoso com o irmão,
Daniel, com quem faz reuniões secretas em que experimentam
verdades, na condição de iniciados especiais.
Nessa época, Clarice Lispector se corresponde com Lúcio
Cardoso, que não gosta do título do livro: acha-o
"mansfieldiano" e um pouco pobre para pessoa tão
rica como Clarice.
No fim da guerra, Clarice é retratada
por De Chirico. Em maio de 45, ela manda uma carta às
irmãs Elisa e Tânia, contando o encontro com
o artista e falando sobre o final da guerra na Europa.
Quando O Lustre é lançado,
Clarice está no Brasil, onde passa um mês. De
volta à Europa, transfere-se para a Suiça, "um
cemitério de sensações", segundo
a escritora. Durante três anos, passa por dificuldades
em relação à escrita e à vida
pessoal. Em 46, tenta iniciar A Cidade Sitiada, livro que
sairia em 49. Vendo-se impossibilitada de escrever, coleciona
frases de Kafka, referentes a preguiça, impaciência
e inspiração.
Para Clarice, a vida em Berna é de
miséria existencial. A Cidade Sitiada acaba sendo escrito
na Suíça. Na crônica "Lembrança
de uma fonte, de uma cidade", Clarice afirma que, em
Berna, sua vida foi salva por causa do nascimento do filho
Pedro e por ter escrito um dos livros "menos gostados".
Terminado o último capítulo, dá à
luz. Nasce então um complemento ao método de
trabalho. Ela escreve com a máquina no colo, para cuidar
do filho.
O período na Suíça caracteriza-se
pela saudade do Brasil, dos amigos e das irmãs. A correspondência
que recebe não lhe parece suficiente. Até 52,
escreveria contos, gênero em que Clarice Lispector talvez
não tenha sido alcançada na literatura brasileira.
Alguns Contos foi publicado em 52, quando ela já tinha
deixado Berna, passado seis meses na Inglaterra e partido
para os Estados Unidos, acompanhando o marido.
Em carta às irmãs, em janeiro
de 47, de Paris, Clarice expõe seu estado de espírito...
Em 95, o escritor Caio Fernando Abreu, então colunista
do jornal O Estado de São Paulo, publicou uma carta
que teria sido escrita por Clarice Lispector a uma amiga brasileira.
Ele comenta, no artigo, que não há nada que
comprove sua autenticidade, a não ser o estilo-não
estilo de escrita de Clarice Lispector. Ele dizia: "A
beleza e o conteúdo de humanidade que a carta contém
valem a pena a publicação..."
Em 1950, na Inglaterra, Clarice inicia o
esboço do que viria a ser A Maçã no Escuro,
livro publicado em 61. Antes de se fixar em Washington ela
passa pelo Brasil. Trabalha novamente em jornais, entre maio
e setembro de 52, assinando a página "Entre Mulheres",
no jornal O Comício, no Rio, sob o pseudônimo
de Tereza Quadros. Em setembro vai para os Estados Unidos,
grávida. Durante os oito anos de permanência
no país, vem ao Brasil várias vezes. Em fevereiro
de 53, nasce Paulo. Ela continua a escrever A Maçã
no Escuro, em meio a conflitos domésticos e interiores.
Mãe, Clarice Lispector divide seu tempo entre os filhos,
A Maçã no Escuro, os contos de Laços
de Família e a literatura infantil. O primeiro livro
para crianças seria O Mistério do Coelhinho
Pensante , uma exigência do filho Paulo. A obra ganharia
o prêmio Calunga, em 67, da Campanha Nacional da Criança.
Ela ainda escreveria três livros infantis: A Mulher
que Matou os Peixes, A Vida Íntima de Laura e Quase
de Verdade. Nos Estados Unidos, Clarice Lispector conhece
Érico e Mafalda Veríssimo, dos quais torna-se
grande amiga.
Veríssimo e família retornam
ao Brasil em 56. Entre os escritores, inicia-se uma vasta
correspondência. No primeiro semestre de 59, o casal
Gurgel Valente decide-se pela separação. Clarice
volta a morar no Rio de Janeiro, com os filhos. Sobre o "conciliar"
casamento/literatura, afirmava que escrevia de qualquer maneira,
mas o fato de cumprir o seu papel como mulher de diplomata
sempre a enjoou muito. Cumpria a obrigação.
Nada além. Na volta ao país, mais um período
de dificuldades afetivas e financeiras. Ela prefere a solidão
ao círculo que tinha relação com o ex-marido.
O dinheiro que recebia como pensão não era suficiente,
nem os recursos arrecadados com direitos autorais. Clarice
retorna ao jornalismo. Escreve contos para revista Senhor,
torna-se colunista do Correio da Manhã, em 59, e, no
ano seguinte, começa a assinar a coluna Só para
Mulheres, como "ghost writer" da atriz Ilka Soares
no Diário da Noite. A atividade jornalística
seria exercida até 1975. No final dos anos 60, Clarice
faz entrevistas para a revista Manchete. Entre 67 e 73 mantém
uma crônica semanal no Jornal do Brasil, e, entre 75
e 77, realiza entrevistas para a Fatos & Fotos.
A década de 60 principia com a publicação
do livro de contos Laços de Família. Seguiriam-se
as publicações de A Maçã no Escuro,
em 61, livro que recebeu o Prêmio Carmen Dolores Barbosa,
A Legião Estrangeira, em 62, e A Paixão Segundo
G.H., em 64.
Uma escultora de classe alta, que mora num
apartamento de cobertura num edifício do Rio, resolve
arrumar o quarto de empregada, cômodo que supõe,
seja o mais sujo da casa, o que não é verdade.
O quarto é claro e límpido. Entre várias
experiências desmistificatórias, a crucial: abre
a porta do guarda-roupa e se vê diante de uma barata.
Embora afirme que o livro não tem nada de experiência
pessoal, admite que a obra fugira do seu controle...
Entre 65 e 67, Clarice dedica-se à
educação dos filhos e com a saúde de
Pedro, que apresenta um quadro de esquizofrenia, exigindo
cuidados especiais. Apesar de traduzida para diversos idiomas
e da republicação de diversos livros, a situação
econômica de Clarice é muito difícil.
Em setembro de 67, acontece o acidente que deixa marcas no
corpo e na alma da escritora - um incêndio no quarto
que ela tenta apagar com as mãos. Fica gravemente ferida,
passa 3 dias entre a vida e a morte. Três dias definidos
por ela como "estar no inferno."
Em 69, publica o romance Uma Aprendizagem
ou O Livro dos Prazeres. Em 71, a coletânea de contos
Felicidade Clandestina, volume que inclui O Ovo e a Galinha,
escrito sob o impacto da morte do bandido Mineirinho, assassinado
pela polícia com treze tiros, no Rio de Janeiro.
Os últimos anos de vida são
de intensa produção: A Imitação
da Rosa (contos) e Água Viva (ficção),
em 1973; A Via Crucis do Corpo (contos) e Onde Estivestes
de Noite, também contos, em 74. Visão do Esplendor
(crônicas), em 75. Nesse ano, é convidada a participar,
em Bogotá, do Congresso Mundial de Bruxaria. Sua participação
limita-se à leitura do conto O Ovo e a Galinha. No
ano seguinte, Clarice Lispector recebe o 1° prêmio
do X Concurso Literário Nacional, pelo conjunto da
obra.
Em 77, concede entrevista à TV Cultura,
com o compromisso de só ser transmitida após
a sua morte. Ela antecipa a publicação de um
novo livro, que viria a se chamar A Hora da Estrela, adaptado
para o cinema nos anos 80 por Suzana Amaral.
Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro
de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário. Queria
ser enterrada no Cemitério São João Batista,
mas era judia. O enterro aconteceu no Cemitério Israelita
do Caju. Postumamente, foram publicados Um Sopro de Vida,
Para Não Esquecer e A Bela e a Fera.

seleção de Fabio
Rocha

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