JARDIM SECRETO (poema original: SECRET
GARDEN, livro PRALARVAS)
Hoje basta a poesia
pois eu sei que algum dia
em certo jardim secreto
mostrarei a cada neto
não nascido, as terras
que não possuí e as guerras vis
de que não participei
e tudo aquilo que não fiz
(nem farei).
E sentiremos o vento...
e celebraremos o silêncio...
até que o sorriso final
se desfaça em noite
restando apenas
o aceno das árvores.
(BIS)
(Fabio Rocha)

COMPANHEIRA (poema original: SONETO À SOLIDÃO,
livro VICE-REI)
Com amor eu tudo faço
pela minha companheira.
E se vejo a lua inteira
Não me basta um pedaço.
E me jogo no espaço
De uma espreguiçadeira
Tendo a alma seresteira
Encharcada de compasso.
Essa música de aço
Que eu faço de bobeira
É pra minha companheira...
E essa cara de palhaço
E esses versos de terceira
São pra minha companheira.
(Fabio Rocha)

QUANDO CRESCER (poema do livro VICE-REI)
Senhor, eu quero ser mendigo,
esquecer o trigo
e comer o pão.
Eu quero não saber do dólar,
só viver de esmola
e ser ermitão.
Ignorar o mundo e as letras
e fazer caretas
para o camburão.
Sonhar sonhos de ignorância
e só ter a ânsia
de viver em vão.
Comer antifrutas sem sumo
e andar sem rumo
pela escuridão.
(Fabio Rocha)

LONGE, LONGE (poema do livro CAMINHO A MANHÃ*)
*(A parte entre colchetes não
entrou na versão musicada)
(Para Drummond)
Ando, ando...
Bancos vazios
em corredores soturnos.
Prédios noturnos
me observam calados.
Rostos, vozes
tudo, tudo
longe, longe...
[O silêncio salta
faz piruetas e dança, invisível
pelo espaço intransponível
que separa eu de mim.
Não ouço meus passos
mas não importa
pois nem eu nem cada porta
por que passo
compreende esse trajeto.
Seguro
com as estrelas
o peso dos véus,
do escuro
e da ausência
inadmissível
intocável
intransponível
inassimilável.]
O vento venta
mas venta pouco.
Quem dera a paz...
Ventasse mais...
Ventasse mais!
E expulsasse
de minha mente enfumaçada
as centopéias indecifráveis
que me fazem não achar.
(Fabio Rocha - UERJ - 06/junho/2002)

ALEGRIA (poema do livro NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL)
(Para Drummond
)
E eu aqui nesta cidade,
cercado de realidade,
aumentando a minha idade,
alérgico a felicidade,
procuro flores no asfalto.
(Fabio Rocha)

VIAGEM DE VOLTA (poema do livro COMEÇO NO FIM)
Olho uma beleza
em dias mais feios
olho uma vontade
rimo uma certeza
mas querer é salto
mas querer é muito
instável
fecho a janela
(penso
logo
não pulo)
(Fabio Rocha)
