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Concurso Literário

 

Pablo Naranja

Sobre os modernos contemporâneos

Eu não entendo muito bem essa gente
Também não sei muito bem de mim
Parece que querem dizer alguma coisa
Parece que querem
Parece que sim.

Aos modernos contemporâneos

Quando julho passar
As festas seguirão com o ano
E para o ano haverá estação chuvosa.
Próximo ano vocês ainda precisarão de um poeta para celebrar.

E quando perceberem que o som resiste pouco sem comunicar,
Que é preciso ser barca para o sentimento,
Eu sinto,
Tenho a impressão, que ainda estarei por lá.

Cansei de mim. Então, agora, serei João.

João acha tudo um absurdo. Acha inclusive achar as coisas absolutas mais um, um absurdo.

João sou eu e eu não sou tudo isso, não. Mas farei com que seja.
Ele crê que arte deva ser obrigatoriamente acompanhada de mais arte.
A escolta uma da outra, para que nunca se sinta só.
João segue um raciocínio lógico, se a arte pode nascer, é porque morre.
O mundo da arte anda muito populoso, a expectativa de vida corre alta.
João encontra a solução. Ele vê que filmes de guerra devam ser mais vistos.
E existem tantos filmes de guerra! João se enjôa dos efeitos especiais.
João tem pais temperamentais e ele acabou também o sendo.

Eu tenho o estômago frágil, João já não sei.
Eu quis ser magro e me mantenho. Não quis ser fraco, mas a coisa veio.
Eu me projeto em João e o faço com veias de calibre forte.
Eu faço penas em João e no primeiro bis o tenho um sujeito de muita sorte.
Ele voa.
João será meu filho, já tenho orgulho disso.
Ô menino!
Quando estiver brincando com seus soldadinhos,
Só não saberei o que dizer, já tenho certeza disso.
Pois tendo tudo planejado nesta carta, essa farsa de arte pra que fique pro futuro...

Ele abrirá o tubo cor de prata rosqueado, terá cavado muito, claro!
E lerá em voz alta... Coisa de gente que se mostra, como sei que sou
Saberá precisamente cada pausa e a respiração será como os orientais mandam
Ou como deus manda ou como Jesus.

- Eles todos mandam, mesmo;
João obedecerá, dessa vez -

E finalmente o meu Cansaço há de se arejar, há de achar o ritmo
Haverá vento, ar, haverá profetas deslocados, parecerão que sussurram,
Que não têm certeza do que vêem
Afinal, quem vai ver o fim num bom contexto?
Esse texto não é mesmo para fugir do fim? No fim das contas, era.

Será tanto,
Que tempo eu terei para deixar de ser João
E tempo haverá para voltar a ser poeta.

Ô, Pé atrás, já atrasaste por demais meu passo!
Hoje as certezas de amor se configuram e daqui a pouco renasço.
O meu cabelo torna prum novo sentido
E feia será sua mãe quando for bem velha.
Meu filho, onde compro uma nova artéria?

A verdade é que a cidade me pariu e agora tenta me engolir
Arrependida, ela acredita que, ao me fazer, fez merda
Mas eu preciso me insurgir, emergir dessa golada
E me agarrar na sua goela.
Não me recrimine por fazer todo esse drama
A cena sobre decadência era essência e necessária
Por isso não se aborreça se for apenas na iminência de perder a cabeça
Que a vontade de viver me acerte a testa.

Minha mãe, meu pai: uma favela.
Uma lhama e um camelo não se cruzam em cativeiro
E eu preocupado com o cabelo, em dilema com a fivela.
Mas não serei tão bobo de fazer mentira
A minha vida antes do princípio desta era
Eu fui coerente, escovei os dentes muitas noites
Para que agora pudesse morder da terra.

Aquele pensamento era outro
Vou refazer o meu provérbio
Todo amor que houver nessa vida, eu quero.
Toda dor que vier de tempero, tempero.
Ao tempo, às eras, tenho zelo
Aos deuses um apelo:
Tenham dó do meu destino de mortal.

Não dá pra tomar por base os romances medievais.
Somos os filhos da revolução,
Não os pais.


Pablo Naranja
http://acrobata.zip.net

 

 

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