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Prefácio
por Ricardo Alfaya*
Caro Fabio,
Acabei de ler seu novo livro, penso que está muito bom. Ao contrário
de outras vezes, você partiu de um título aparentemente direto,
sem ambigüidade: LIBERDADE. Entretanto, conforme vamos lendo a obra
percebemos que a ambigüidade persiste no sentido paradoxal das atitudes
e crenças do "eu-lírico", que ora parece crer de fato numa forma
de libertação possível, ora desfalece, reconhecendo a impossibilidade
de qualquer utopia libertária, até mesmo individual, nesses tempos
descrentes e sob o sistema opressivo implementado pelas transnacionais.
Há um aspecto muito original na poesia que você está fazendo, e
que ainda não vi em ninguém mais: consiste nesse caráter autobiográfico,
quase seqüencial de seus escritos. De certo modo, sua poesia tem
algo de romance. Lá estão seu emprego, Marise, seu pai, eu, Tanussi,
suas leituras, sua psicanálise. Há um certo toque de Proust nisso,
só que você não corre atrás de um tempo perdido no passado, você
suspeita da possibilidade do "Carpe Diem", do aproveite agora, do
viva agora. Há uma certa noção de que o tempo perdido É AGORA! São
tantas as barreiras, os sufocos, os empecilhos para o exercício
da "liberdade" (condição inerente ao "ser" humano, segundo Sartre)
que não sobra lugar nem para o desespero, ou melhor, até ele se
transforma em perplexidade.
E aí entra a questão: fazemos poemas ou poesia? Isto é, existe
um certo critério, um certo mandamento de fazer poesia que se torna
difícil de atender, posto que a realidade que vivemos é tão sem
poesia (num certo sentido, naturalmente), que não há de onde extraí-la.
A questão, assim, do de onde "inventar" a poesia se torna recorrente
na obra. São questionamentos constantes, persistentes.
Acho que por alguns de seus poemas dá para perceber, suspeitar,
talvez de uma certa dúvida sobre quanto a validade poética do que
você faz. Na verdade, o problema não está em você. Quando digo que
gosto de sua poesia, eu o faço de coração e sei que tenho argumento.
Entretanto, nem eu, nem ninguém, detém no momento o poder do critério
definidor do que hoje seja boa poesia ou não. Essa é a luta monstruosa
e dilacerante que se trava no cenário. É imprudente e inconveniente
citar nomes, mas é claro que se A, B e C fazem e defendem um tipo
de poesia que não se parece nem de longe com o que você faz, então
começa a surgir aquele mal-estar, de que de repente apenas um dos
dois está com a poesia, o outro não. Na verdade são premissas falsas,
pois a convivência pacífica de gêneros diversificados é perfeitamente
possível. Ou melhor, seria, uma vez que a História mostra que os
que ficam são sempre poucos. Em geral, os melhores. E quem são os
melhores? Ora, a resposta vai depender da boca de quem a disser.
Em termos de poesia, vivemos num tempo em que se digladiam opiniões
não apenas de pequenos grupos, mas também de poetas individualmente
considerados.
Há muito cheguei à conclusão de que o poeta brasileiro contemporâneo
não deve contar com qualquer unanimidade. Haverá o grupo dos que
dele gostarão. Haverá aqueles que, por variados motivos, nunca lhe
darão qualquer oportunidade. As exceções, se existirem, serão pouquíssimas.
Porém, nem isso é garantia, pois, embora não chegue a dizer, como
Nelson Rodrigues, que toda unanimidade é burra, devemos admitir
que pelo menos suspeita ela é. Por certo muitos não ousam questionar
publicamente qualquer personalidade muito cortejada, menos por a
amarem do que por temor às conseqüências do imprudente gesto. É
uma cartada muito alta, que pode até consagrar quem a faça, mas
que também pode expor o indivíduo ao ridículo e à execração pública,
de maneira irreversível, como é o caso do cidadão que recentemente
ousou afirmar na Internet que Drummond não era poeta por nunca ter
escrito um poema dentro dos rigores da métrica e da rima.
Um outro aspecto ainda que notei em sua poesia, mais do que das
outras vezes, é uma consciência maior sobre a natureza de seu trabalho.
Quando você questiona, por exemplo o valor da poesia hermética e
obscurantista. Sim, sua poesia é mais voltada para a revelação do
que para a obscuridade. Cada volume de suas obras contribui para
um melhor entendimento do tempo em que vivemos.
Desenvolvi minha própria poesia muito calcada nesse aspecto, do
qual nunca dissociei o conhecimento interior, em razão de minha
concepção gestaltiana, holística, integrada do eu e do universo.
A velha questão: como dissociar rigorosamente o sujeito do objeto,
quando nosso próprio corpo, elemento integrante do sujeito, é, no
fundo, um objeto como tantos outros? E como tratar como coisa certos
objetos com os quais desenvolvemos ligações afetivas "in extremis",
como os poemas que fazemos, por exemplo. Sujeitos ou objetos?
Então, é a poesia de que gosto. Respeito, tento ouvir as motivações
de certos autores que se entregam a erudições, hermetismos e preciosismos.
Não são inteiramente desprovidos de razão, posso entendê-los. São
frutos de nosso tempo de contradição e perplexidade, de ausência
de rumo, da distância cada vez maior entre o homem comum das ruas,
mesmo o alfabetizado, e o autor de poesia escrita. De que adianta
ser compreensível, se quem nos vai ler é uma elite exigente e competitiva,
que vai desprezar o que não lhe pareça sofisticado, requintado?
E o poeta, sabendo que escreve para um poeta, tornará seu texto
cada vez mais fora do alcance do homem das ruas.
Então, todas essas são questões muito interessantes que você traz
para sua obra, uma poesia que, no meu entender, tem condições de
agradar tanto ao poeta de mente livre, sem preconceitos estéticos,
quanto ao público sensível, observador e letrado em geral.
*Ricardo Alfaya é poeta, contista, cronista, ensaísta,
editor e jornalista carioca.
Endereço de seu blog Nozarte:
http://nozartecultural.blog.aol.com.br/
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