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PRÓLOGO PARA UMA POÉTICA DO IMPOSSÍVEL

por Ricardo Alfaya

Depois de "A Magia da Poesia", 2000, livro de estréia no qual o poeta carioca Fabio Rocha reuniu uma seleção de poemas escritos desde 1994, o Autor brindou seu público, em março deste ano, com o belíssimo "Tudo pelos Ares", sobre o qual   também tivemos o prazer de tecer alguns comentários.   Embora tenha apenas 25 anos de idade, o trabalho de Fabio tem chamado a atenção dos leitores de poesia, além de vir obtendo diversos prêmios em concursos. Assim, estimulado pela boa receptividade, praticamente em seguida ao lançamento anterior, o poeta oferece este "Na Medida do Impossível", que, justamente pela proximidade no tempo com "Tudo Pelos Ares", incentiva a observação das sutis nuances diferenciais presentes no terceiro trabalho, nas quais se percebe a expressão da singularidade que o constitui.

Para começar devemos admitir que, individualmente considerados, quaisquer dos poemas de "Na Medida do Impossível" poderiam figurar em "Tudo pelos Ares", sem prejuízo das qualidades de unidade de conteúdo, originalidade de discurso e sabor da palavra tão ressaltadas por nós naquela Obra.

Por outro lado, se enganará quem, em função disso, imaginar que "Na Medida do Impossível" seja apenas mera repetição. Na verdade há um "plus" neste terceiro livro, pois o conjunto de poemas, num total de 120 páginas, escrito no período de fevereiro a junho de 2001, assume um certo caráter de diário. A substituição do diário em prosa por um fazer poético quase diário assinala uma das tendências da produção poética contemporânea, sobretudo nos tempos pós-Internet. Já a poeta Rosy Feros teria sugerido o fenômeno, ao intitular seu belo e premiado livro como "Tecendo Diários".   Aliás, não sem razão, Rosy vem desenvolvendo animadamente a atividade dos "blogs", sistema que constitui um retorno aos diários, mas em forma pública e eletrônica pela Rede. Entretanto, se Rosy o sugere, Fabio Rocha torna explícito o fenômeno da substituição, quando o refere claramente no poema "Diário". O mesmo poema soma ainda um outro ingrediente, que diz respeito à própria proposta do livro como um todo, assunto sobre o qual falaremos mais adiante.   Repare-se, a propósito, no texto mencionado, constante da página 90:

DIÁRIO

Parei de escrever

diários.

Agora

minha poesia quase diária

já fala sobre tudo

que não faço.

E não tenho

que pôr pingos nos is.

Assim, tudo que o poeta experimenta e com que interage eventualmente se pode tornar objeto de sua pena: o telefone ocupado, a notícia do jornal, a imagem na tela da TV, a lembrança da namorada, a borboleta que passa (ou que se imagina que passa), a efêmera peculiaridade de um determinado momento. Em geral o registro é curto e não se limita à tentativa do relato conforme a realidade, no que se diferencia da linguagem dos diários. Os fatos são transformados em razão das urgências poéticas do Autor. Desse modo, a poesia, enquanto diário, revela-se, paradoxalmente, um antidiário.

Porém, não apenas por essa razão constitui um antidiário. Ao leitor não terá passado despercebido o sutil detalhe do poema acima transcrito: a poesia de Fabio, enquanto diário, diz daquilo "que não faço". A afirmação provoca estranheza. Afinal, em poucas obras de poesia se constata a presença de um poeta tão variado e itinerante.   Desde seu livro de estréia, Fabio Rocha percorre atento o movimento das menores coisas, caminhando reflexivo, lírico e lúdico por notável diversidade de temas.

Observe-se que eu disse "caminhando". Também Cecília Meireles, poeta expressamente homenageada nos versos de Fabio, tinha essa característica da observação das coisas. Quem lê Cecília, tem a sensação da riqueza do mundo.   Cecília inúmeras vezes desce às minudências das coisas, capta detalhes de folhas e insetos, o significado de um gesto, da transformação de uma linha da face. Porém,   quando estamos com Cecília não temos a sensação do poeta em movimento; sim, pleno de atitude contemplativa.

De outro modo sucede com a poesia de Fabio que se mobiliza junto com o movimento das coisas e do mundo.  Ele não apenas contempla, interage, está dentro do absurdo vulcão dos acontecimentos. Fabio cursou Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, durante cinco anos, sem concluir o curso. Optou pelo de Administração de Empresas, que faz atualmente na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Em sua poesia ele fala de seu trabalho e de seu estudo, bem como de tudo que lhe sucede: elogia, briga, dialoga, sofre, diverte-se, critica, "chuta latas", ama, manda "tudo pelos ares"; sobretudo, os "ares" da Rede, conforme me observou numa de suas mensagens.

Logo, esse "que não faço", longe de relacionar-se com um estado de inatividade permanente do Autor, vincula-se a dois outros aspectos. O primeiro equaciona de maneira sutil o fazer da poesia com o imprescindível tempo de ociosidade necessário ao fazer artístico.   O tempo do poema é, portanto, o tempo do "não-fazer", o tempo "inútil", isto é, o registro diário poético somente se pode dar quando o indivíduo se vê por fim desembaraçado das "utilíssimas" e estressantes obrigações impostas pela sociedade contemporânea, sem as quais não é possível sobreviver. Daí, a opção pelo poema de linguagem concisa,   verdadeiros "cortes" impostos pelo poeta aos ditames da realidade.   Realidade que absolutamente não aceita e com a qual não concorda, atitude expressa em vários poemas, e bem claramente no da página 17, o belíssimo trabalho intitulado "Para Álvaro de Campos".

Temos aí, portanto, o primeiro ângulo em que a "medida possível", o poema conciso, medida imposta pelo escasso tempo e condições em que o poeta é forçado a trabalhar, resulta numa "medida impossível", posto que desfalece o poeta numa sensação de incompletude.   Por incompleto, rarefeito e disperso, ignorado pelas grandes editoras e apartado de um público mais amplo, e ainda em meio ao tiroteio das cada vez mais múltiplas e individualizadas manifestações da poesia existente, o "fazer" termina por assemelhar-se a um "não-fazer".

Quanto ao segundo aspecto, do "que não faço", ele encaminha à reflexão maior que atravessa a Obra.   Reflexão que, no início desta apresentação, dissemos tratar-se de um importante diferencial em comparação com "Tudo pelos Ares". Refere-se à união criticamente realizada pelo poeta entre a crise poética e as crises social, política e existencial.

A primeira pista aparece já no título do livro.   Em seguida, ganha maior nitidez com a alusão introdutória à Obra, feita a partir do seguinte trecho do poema "Tabacaria", de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa:

"Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo (...)"

Por fim, o significado surge inteiro após a leitura dos diversos textos, quando chegamos ao excelente poema-título, estrategicamente colocado no final do livro, o último que se lê, no qual o Autor retoma e amarra a idéia central que lhe inspirou a organização do conjunto:

NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL

Queria arrombar com versos pesados

as portas do Paraíso.

Escritos com o sangue dos expulsos

e a revolta das gerações infindas.

Queria voltar ao que nos pertence

com um poema

na medida

do impossível.

Portanto, o segundo significado para aquele "não-fazer" diário, correlaciona-se com a aparente ausência de sentido daquilo que fazemos em nosso dia-a-dia, o que inclui o próprio fazer poético.   Se o que fazemos não "faz sentido", equivale, em última instância, a um "não-fazer".   Logo,    o "Paraíso" aludido no poema tanto pode ser percebido num sentido físico (social e político), metafísico, quanto metalingüístico.

Pode-se com propriedade concluir que Fabio Rocha se insere na herança cética e nihilista que vem desde nomes como Fernando Pessoa e Drummond.   Ceticismo e nihilismo esses que se tornaram constantes e cada vez mais recorrentes na poesia em geral praticada nas duas últimas décadas anteriores à virada do Milênio, como um autêntico mal de "fim-de-século".   Entretanto, a conclusão, resumida nesses termos, não me parece que iluminará o melhor entendimento da escrita do poeta, tampouco trará a lume o detalhe que revela sua peculiaridade.

Sim, porque é disso praticamente que se alimenta a boa poesia feita em nosso tempo: ser capaz de um detalhe peculiar, que lhe seja inteiramente próprio, por mínimo que seja, dada a enxurrada de autores existentes, em sôfrega experimentação diária de todas as formas, palavras e recursos.

Um desses traços incomuns diz respeito justamente ao desassombro com que o poeta expõe todo fazer como um "não-fazer".   Não se trata apenas, como se tornou habitual constatar ou falar, da relativa inutilidade do fazer poético, ou da aparente "falta de sentido" da existência.   A negação em Fabio atinge um limite extremo, posto que sequer reconhece realidade, concretude, em todo pretenso fazer da atividade humana.   Trata-se de uma operação de caráter tão radical que, mais do que conduzir a uma amargura drummondiana ou a uma angústia à Fernando Pessoa, termina, paradoxalmente, por atingir um caráter libertário e transcendente.

Nada de choro ou ranger de dentes.    Tampouco sucede como em alguns personagens de Samuel Becket, cuja consciência da inutilidade de qualquer esforço conduz praticamente a um imobilismo que se resume à espera de um "salvador" Godot.   Ao contrário, em Fabio Rocha é quase com serenidade, com intimidade, com absoluta leveza, com humor e até mesmo com declarado orgulho, que o poeta conduzirá o leitor à constatação do fato.   Chega a recordar a atitude dos orientais quando nos revelam com voz mansa que "o mundo é ilusão".

E aqui se revela por fim o último traço especial na escrita de Fabio Rocha.   Traço que, sem dúvida, começa já a situá-lo, aos 25 anos, como um poeta do Terceiro Milênio.   Se a sobrevivência ao total desencanto de tudo conduz à liberdade, o que fazer dessa liberdade, se todo fazer encontra-se de antemão condenado a ser um "não-fazer"?

A única resposta que parece possível diante de tão desconcertante quadro é partir para uma atitude inaugural calcada em nova ordem de valor. Não basta constatar, como Álvaro de Campos, que se tem em si "todos os sonhos do mundo". Não basta, se continuamos a achar que a realidade possui valor maior do que o sonho. E que por possuir maior valor, sugerido pela aparência de solidez, a ela cabe o direito de manter contidos e quietos no abissal fundo do eu os sonhos que se tenha.

Se todo fazer configura na verdade um "não-fazer", então a realidade é "nada".   Nesse caso, o sonho, o desejo, que se situa numa dimensão que transcende essa realidade lhe é superior. A realidade dirá que o sonho é impossível. Todavia, que legitimidade, que autoridade terá a realidade para falar, se, em última análise, ela é feita de "nada"? Talvez por isso, Borges, afinado com o budismo, entendesse que a poesia não se devia submeter à realidade, mas sim, exercitar-se na expressão do sonho, do desejo.

Considerando-se por esse prisma, a expressão "Na Medida do Impossível" despe-se de sua aparente ironia e negatividade para adquirir o sentido maior de um desafio a ser vencido. De certo modo, toda a expressão passa metalingüisticamente a referir ao próprio fazer poético. A poesia que tiver capacidade, força e originalidade para expressar os internos "sonhos do mundo" realizará em si a impossível medida. Ora, tudo isso possui um singular e fascinante sabor inaugural e transcendente, um explícito e ousado convite à ação. Um tom, portanto, muito diferente do ceticismo amargo ou do nihilismo paralisante, presentes em grande parte da poesia do Século e do Milênio passados.

Por fim, não me parece demais salientar que "medida do impossível" remete sonoramente a "menino impossível". Diz-se de um menino "impossível" quando seu comportamento recusa a forma, rejeita o molde. Se pensarmos assim, reconheceremos que todo bom poeta possui algo de "menino impossível", que "faz arte". Jesus também foi Menino, sem dúvida animado por uma missão que sugere o impossível: fazer com que cada um ame ao Outro como a si mesmo. O possível é o existente, o conhecido, o assimilável. Todavia, como diria o grande psicólogo Wilhelm Reich, em "O Assassinato de Cristo", toda criança que nasce   contém em si a potencialidade para a plena realização, desde que a sociedade "não assassine o Cristo latente que existe em cada criança". Somente a criança ou aquele que puder tornar-se uma, poderá pretender inaugurar e realizar o impossível. Igualmente apenas dessa forma, conforme vaticina Jesus, habilitamo-nos a ascender ao Reino. Ou, como percebeu Fabio Rocha, exclusivamente com atitudes e versos "Na Medida do Impossível" estaremos aptos a "arrombar as portas do Paraíso".

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2001.

Ricardo Alfaya , poeta, contista, cronista, ensaísta, editor e jornalista carioca.


CRÍTICAS

Boa Tarde, Fabio Rocha!! "Como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena embora o pão seja caro e a liberdade pequena." Ferreira Gullar Por muitas vezes, eu pensei muito em deus e agora confirmo, em plena tarde de sábado, "que Deus está morto" e cada palavra dos poemas de Fabio Rocha faz parte de "Partes" dentro de mim. O poema é forte e se divide em tantas outras emoções. "Os pássaros"? trazem versos mágicos e encantadores: "Comem caladas." "Foi quando estranhei um estranho estranho ali parado." O poema, todos os poemas que li até agora de Fabio Rocha, vão crescendo em mim, uma visão de espanto, alegria e encantamento. Como disse Lucien Febvre: "Para os homens insurgirem-se, foi necessário antes espantarem-se." E depois de tudo que li, você não precisa esperar cem anos e você já faz letra ...através da magia das palavras. E "em boa hora" eu também "sonho com o dia em que a vida"seja plena poesia e em plena via 24 horas do tempo de cada poema. Poesia plena. Em "Mais Mais Valia" a gente descobre que a vida não vale nada e deus não passa de uma imagem na memória e nas nuvens... E como o "o poema não tem tempo" eu fico por aqui com um poema que dê salto no escuro, murro no muro; seus poemas, um dia, viajarão pelo brasil que não lê, pelo brasil que não conhece seus poetas... e como "o universo conspira insônias lá fora", , eu me despeço "porque não tenho os pés no chão" e já perdi a minha "carteira de poeta" e por esta razão, vou tecendo a fantasia de cada dia, cada dia de um dia de cada vez. "Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo." Guimarães Rosa PS.: como editor da revista "Polenta Frita", selecionei alguns poemas para a revista e quando sair, início de outubro, envio alguns exemplares.

Calixto
Verso & Reverso Comunicação


 




 
 







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