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Prefácio

Sangro mas não choro - Rubens
da Cunha
Fabio Rocha é um poeta surpreendente. Dono
de uma produção contínua, publicada tanto em
livros reais, quanto em livros virtuais. Objetos diferentes para
comportar uma obra poética que se diferencia pela crueza
direta da coloquialidade: “caralho, estou fazendo um poema”
por aquela simplicidade aparente, pois seus textos estão
agarrados no cerne das questões cotidianas: “Estou
amargo como o aspargo que não comi”.
Neste “O Outro” há uma certa revolta, provocada
pelo indivíduo preso na cidade gigante: “O que eu quero
tendo raiva dessas manifestações mínimas que
me aparecem milagrosamente numa cidade sem amigos, de amigos distantes,
de amigos ocupados, de nenhuma amiga?” A solidão imposta
pelo ambiente conturbado é combatida por Fabio com ironia,
um preciso humor amargo, mas nunca negro ou agressivo. O humor dos
poemas manifestam uma vontade intrínseca de que tudo poderia
ser diferente, mas infelizmente não é.
Todas as relações humanas, as desconexões entre
os seres, as dúvidas quanto à própria função
de poeta neste caos, perpassam este livro, feito estiletes invadindo
nossas verdades estabelecidas.
Fabio não considera sartrianamente os outros como inferno.
Em certo momento diz “eu tento ser perfeito para o outro”
e nesta tentativa (a tentativa de todos nós) erra e acerta,
escorrega e reclama. Humano demasiado que é, expõe
o os joelhos ralados no poema, imiscuindo o eu-Fabio Rocha, o eu-lírico,
o eu-leitor numa coisa só. Mesmo quando se tranca, o mundo
externo retém toda a sua atenção, a sua necessidade
de ser compreendido. Em Umbral, um dos mais belos
poemas do livro, percebe-se esta dualidade: eu x mundo.
Estou trancado.
Lá fora
leões
que amo.
A casa encolheu
ou eu que cresci?
Estou armado até os dentes.
Eles têm fome.
Ouço seus rugidos.
(Algo em mim quer ser um monstro.)
Cansado de ferimentos
olho para a porta
a chave pesando a mão.
O homem sendo diferente - a maldição
da sensibilidade - deseja entre parênteses ser um monstro,
pois lá fora estão os leões que ama, lá
fora está a vida que o seduz e repele, “suicida sem
coragem”.
Neste percurso cotidiano, de frieza, de mundo em guerra, os poemas
vão dialogando com outros autores: Drummond, Cecília,
Cazuza, vão tentando entender a força descomunal da
contemporaneidade consumista, alarmista, indiferente: “o cotidiano
me cospe me corta me cota em minhas costas o peso do não
ser”, ao mesmo tempo em que busca soluções:
“É parando que se chega perto de ser você mesmo”
e no meio de tudo tenta convencer o labirinto que há firmeza
e vontade.
No alto desta poética afetada pelo mundo externo, que busca
diálogos interpessoais com “morcegos absurdos”,
o poeta grita: “sangro mas não choro”. Estaria
mentindo ou dizendo a verdade? Descubra você, invadindo este
“O Outro” descobrindo-lhe as artimanhas e a beleza.
Rubens da Cunha
http://www.casadeparagens.blogspot.com
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