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Por
baixo da saia
À primeira vez que
tive contato com a poesia de Fabio Rocha, percebi o talento incontestável
do autor. Isso se deu a partir do site www.falaê.com.br . Ambos éramos colaboradores.
A partir das pistas naquela revista eletrônica - para mim, uma
das melhores em termos de diagramação - que visitei a página pessoal
do autor www.amagiadapoesia.hpg.com.br, o que foi uma grande
descoberta.
Muitos há no Brasil talentosos e Fabio é um deles. A internet é
a saída para todos nós que trabalhamos com arte pois, até agora,
com pouco dinheiro nos fazemos circular em tempo inimaginável até
o início da década de 70 e em termos de Brasil, até o final dos
anos 80, com complacência e até ontem com realismo.
Fabio tem sensibilidade
e talento para fazer uso desta ferramenta, se não acessível a
toda população, pelo menos à classe média. O site, A Magia da
Poesia, muito bem diagramado, diria até que revelando um outro
talento do autor, o das artes plásticas, ou quem sabe, desta tão
falada poesia visual, chama atenção primeiro por isto: pelo show
visual que nos dá em economia de formas e precisão estética. Ao
longo do tempo, conheci seus poemas nus. Sem a roupagem rica das
cores e da animação cibernética. Estavam lá versos verdadeiros,
versos por inteiro. Sem dúvida, sua poesia perde muito sem suas
vestes plásticas. No entanto, percebe-se o ente nu, totalmente
desfolhado, mas não esfolado. Com o livro que temos aqui se comprova
isso. São poemas curtos, à moda atual, tão vilipendiada por críticos
nostálgicos de um tempo em que a genialidade parecia ser o comum
e o normal nunca existido.
Principalmente entre
jovens, a poesia tem sido curta. Que queriam os mais velhos? Como
debruçar-se sobre epopéias e enormes sonetos com a rapidez em
que estamos imersos, na qual nascemos? Seria forçar a mão em busca
de um sonho perdido. Mas, que sonho? Quem poderá dizer a época
mais profícua para versos? E não houve Safo e muitos outros que
em poucas linhas diziam quase tudo? Sem dúvida, muito se perde
por julgar um poema pela quantidade de versos, presença de rimas,
ou imaginárias missões maiores.
Certo é que muitos
preguiçosos e orgulhosos de sua ousadia rabiscam palavras de ordem
ou de segredos sem notar que o poema curto não é uma regra, não
se esgota e nem é uma grande descoberta ou invenção pós-moderna.
Se curto porque
deva ser curto, que seja, e se está curto porque não está pronto
ou nunca estará que se estude e se trabalhe no balbucio primeiro.
Esses, que também são muitos, fazem deste estilo, seu estilo,
sem notar que ficaram presos no próprio reflexo à maneira de Narciso
e nem sabem em que estão afogados.
Em Fabio, percebe-se
que há um trabalho em constante evolução e seus poemas se fecham
no círculo necessário a qualquer projeto. Ele sabe terminar um
poema. Eles acabam em si. Eis o ponto crucial de Fabio, o que
o singulariza. Realmente temos poemas muito curtos. Curtos o suficiente
para nos surpreendermos. Vejamos o poema "Casa":
Quero estar em casa
longe dos olhos alheios,
minhas sombras sempre estranhas
e esses malditos espelhos.
Que se pode acrescentar
a este poema? Que dizer dele além de: sim, é verdade eu sinto
isso. Mas, atenção ao sentido de leve escamoteado pela ausência
da preposição "de" nos dois últimos versos: longe
dos olhos alheios, minhas sombras... Com a atenção que peço
ao leitor, vejo o seguinte: Quero estar em casa/ longe dos olhos
alheios, de minhas sombras sempre estranhas e
desses malditos espelhos. A preposição pode ser
suprimida se presente no início. E se o poeta não a sumprimisse
o poema perderia seu valor se não totalmente, em grande parte.
No entanto, também se poderia entender os versos últimos como
aposto em que olhos alheios seriam as sombras estranhas e malditos
espelhos onde o pronome esses reforçasse ainda mais
a ira do autor. Sim, esta é uma segunda leitura do poema. Na primeira,
uma referência ao resto da população que rodeia o poeta, o mundo
e seus obstáculos enormes, a casa como refúgio tranqüilo onde
ele pode ser essência e não reflexo, sem espelho, com olho de
alma invisível e sensível. No segundo a referência ao grande Outro,
na consciência de que o inferno não são os outros, é o Outro disfarçado
de outros, como não diria Sartre, porque Lacan ainda não teria
difundido sua idéia de Grande Outro.
Percebe-se de pronto
a personalidade do poeta, uma personalidade tímida e bem humorada
como costumamos ser, brasileiros. Manuel Bandeira mesmo triste
e choroso é cômico, ou não? Que dizer da relação que teve com
Elizabeth Bishop quando esta foi presenteada com uma casa em Petrópolis
ao lado de uma mulher como Lota. Bishop o achava típico, como
os demais brasileiros, como se vê em suas cartas. Mas, quem está
de fora, vê que também ela era típica, falava de versos puros
e se torturava por serem tão difíceis. Bandeira deitava na rede,
tranqüilo e seus versos falavam das coisas simples do coração.
Bishop queria falar dos barcos, do porto de Santos, do encardido
que não estava nela, ou se estava, não achava que deveria ser
a poesia meio para mudar seu espírito. Bandeira, se falava do
coração, de seus sofrimentos de raquítico, não era para purgar-se
disso, mas para desabafar, para apaziguar-se e com os versos fazia
comunhão com a sabedoria da serenidade do miserável, tirando místico
prazer da dor. Bandeira era um poeta brasileiro de versos quase
sempre engraçados, apesar de falar de coisas quase sempre tristes
e Bishop uma missivista de língua saxônica, cômica, altamente
cômica, em cujos poemas se vê um olhar estupefato, e mesmo que
não quisesse, com o lampejo das almas sábias, que em tudo vêem
um risco de graça.
Há humor nos versos
de Fabio Rocha, mas é um humor sem intenção, um humor inerente
à condição dos frágeis. Ele se mostra frágil em seus poemas, cônscio
disso nos versos, sem auto-piedade, apenas mais um dos aspectos
de sua poesia e essa fragilidade exposta é que dá a primeira impressão
de uma comicidade e de se tratar de um poeta menos profundo. O
que é engano enorme. Na releitura de Fabio é que percebemos que
o humor, a graça primeira, era apenas um véu sobre o trágico da
condição humana, das inúmeras limitações e fascinações a que somos
expostos. Vejamos "pressa de amar":
Sou aquele
que chama
pra dançar
e nota
que não tem
pernas.
Fabio Rocha é um poeta que levanta a
saia. Mas, é preciso que o leitor não tenha pressa em o tragar,
nem de o julgar. Ele levanta a ponta da saia. O leitor desnuda
o vice-rei cômico, para descobrir uma verve autêntica de poeta
que não veio para fazer rir, nem para fazer chorar, mas para fazer
arte.
Elaine Pauvolid

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